segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mais uma dose

Eu bebo do seu veneno e fico parada, esperando que ele se misture com meu sangue e eu possa continuar fingindo que nada aconteceu. Aqui, estática, posso ver os seus movimentos, posso ver que você me olha pelo cantinho desse seu olho mais profundo que o Pacífico, que parece que vai me afogar a qualquer momento. Do meu ângulo posso ver todos os seus sorrisos, escutar suas piadas, sentir o seu abraço. Mas eu não existo. Eu não existo porque a cada gole desse veneno, torno-me um pouco mais invisível e já foram tantos litros que sumi.
Não te culpo por essa minha palidez, a vida fez questão de mostrar os bônus de ser invisível. O veneno já não demora a fazer parte do meu sangue e a concentração é cada vez maior, torno-me cada vez menos frágil, menos sucinta aos seus ataques, seu soro.
Talvez o mais difícil seja encarar as pessoas para as quais ainda existo, ninguém vê que tudo isso serve-me de fortificante, que cada vez que endureço, chego mais perto da felicidade. Minha invisibilidade incomoda essas pessoas, mas não as entendo, está tão confortável aqui. Sem eles, sem você.
Assim como a mentira, que contada várias vezes torna-se verdade, tomo esse veneno como quem toma água, pois ele já faz parte de mim. Bebo, sem pena de mim, sem pena de você ou de qualquer outra pessoa. Sigo, envenenada e sorrindo, para qualquer lugar bem longe daqui. Procuro outras pessoas, outros sonhos e outros goles de outros venenos, porque o seu já não faz mais efeito. Adeus.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Caixa.

Lembro-me de um dia que eu tinha decidido ficar em casa, sozinha, cuidar das plantas e do meu cachorro. Só. Liguei pra ele e disse que estava doente, que não daria pra sair com o pessoal porque tinha medo de contagiar ou enojar os mais frágeis. Depois dos afazeres, eu alugaria um filme e faria pipoca no microondas. Quatro minutos, nada mais, nada menos, pra não queimar como da outra vez. Seria o dia perfeito, o meu dia.
Não fiz nada disso, é claro, como já era de se esperar. Primeiro que a minha cama estava me envolvendo de um jeito que não dava pra abandonar, então passei horas procrastinando, coisa que eu sempre fiz bem. Depois fui arrumar o guarda-roupas e encontrei uma caixa, dessas que você abre com medo, pois o passado pode vir devastador e dar um tapa na sua cara, abri pensando que não tinha nada demais ali, mas tinha, sempre tem. Comecei a tirar aquelas fotos e cartas que deveriam estar em uma lata de lixo qualquer ou, com toda minha mania de ser ecologicamente correta, em alguma associação de reciclagem, mas não era o caso, estavam ali em minhas mãos, queimando meus dedos como uma xícara de café recém posto. Tem horas que a gente não descansa até que a brisa do passado volte a balançar nossos cabelos.
Ri e reli as cartas, olhei cada detalhe das fotos, reparei em todos os defeitos, os meus e os seus, é claro, pra me convencer de que se era passado, é por que não tinha motivos pra ser presente. Eu sempre fui muito besta em relação a essas frases de efeito, mas naquele dia eu percebi que isso não tinha sentido, porque, em meio àquelas lembranças, mesmo com todos os dentes tortos, olheiras, espinhas, lixo na rua, eu só consegui reparar na perfeição de estarmos juntos, na eternidade que aqueles momentos pareciam ter.
Depois de passar metade do dia revivendo, em sonhos, tudo aquilo, eu só conseguia pensar em você. Quem era você agora? Quem se tornou aquele homem que conseguia transformar qualquer defeito em detalhe? Quem sou eu sem você? Desandei a procurar qualquer contato seu. Achei um cartão do seu emprego e pensei em não ligar pois qualquer um já teria trocado de número, mas lembrei que você não era qualquer um e que nunca trocava de chip, só de aparelho. Liguei e, como quem não queria nada, perguntei as novidades e depois de meia hora de conversa (assunto nunca nos faltou), já tínhamos marcado um encontro no café que tinha aberto uma semana antes no shopping.
Hoje tento lembrar por qual motivo nós tínhamos nos afastado, porque diante dessa sintonia, não consigo pensar em nada que possa ter desviado nossos rumos. Só sei que agora, contando essa história pra você, só posso ter certeza que você nunca foi passado, sempre foi presente, futuro ou qualquer outra coisa que possam inventar. Só sei que você nunca foi, você é e sempre será essa coisa dentro de mim que não acaba nunca.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Quase.

Semana passada eu estava num bar, pensando, entre um gole e outro do conhaque mais barato do menu, em todas os conselhos que ando engolindo, fingindo que ouço, que sigo, que tomo pra mim, pensando no que tem se tornado o maior problema da minha vida: viver. Viver deveria ser uma coisa menos complicada, por sinal, já não aguento as dores de cabeça que isso anda me trazendo, nós poderíamos simplesmente dar sinal e descer na próxima estação, virar a esquina e já estar em outra vida, outros planos, outro tudo. Perfeito. Mas aí vem a vida e contraria todos os meus planos, não dá pra descer, não tem sinal, nem cordinha pra puxar, viver não é uma opção, vive-se e pronto.
Fui interrompida, como sempre, dessa vez pelo garçom, que queria saber se eu queria algo mais, eu não queria, meu dinheiro estava acabando e eu ainda estava economizando pra comprar aquele sapato divino que tira qualquer mulher da fossa, mesmo que superficialmente. Não perdi a linha de raciocínio, logo depois de dispensar o garçom com alguma mentira pré-inventada, continuei pensando e pensando e me sentindo cada vez mais insegura em relação à vida e às pessoas e ao mundo e a mim, principalmente. Dá pra viver sem problemas ou isso é só utopia? Alguém me salva, estou morrendo afogada nessa insegurança, eu não sei nadar, já avisei. Onde está a bóia? Não tem bóia, só tem eu sendo autodidata nas aulas de natação e de vida.
Uma quase mulher, com responsabilidades quase adultas, problemas quase insuportáveis e essa insegurança de quem não viveu direito, de quem subiu no trem errado e agora só assiste a vida passar pela janela empoeirada. Acabou o conhaque, e agora? Como é que eu continuo a vida de mãos vazias? Como é que se vive, amigos? Cadê os conselhos extraordinários agora? Me ajudem. Não ajudaram...
Fui embora do bar e deixei meus problemas naquela mesa torta, porque não dava pra sair sem pagar e ainda ser o centro das atenções com aquela mala de dimensões espaciais. Desde então tenho vivido sendo quase tudo, qualquer coisa ou quase nada.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Coisas casuais.

Era dia 25 e ele caminhava pelas ruas de São Paulo enquanto observava uma movimentação estranha, um grupo de pessoas que comemoravam não sei o que com uma garrafa de vinho na mão e um sorriso aberto no rosto. Era dia 25 e ele não comemorava nada, apenas caminhava e conversava com estranhos nas ruas de uma cidade morta, perguntava-se acerca do mundo, dos motivos que impulsionavam aquilo tudo e das pessoas, esses seres-contorno, sem conteúdo, sem nada. Que pessoas são essas? Que bando de andorinhas sem verão são essas que voam sem ter onde pousar? Quem? Eu não sei.
E o que restou do que era pra ser eterno? O que restou dessas almas abandonadas? Restou essa dor escondida num copo de vinho, esse nada que diz ser tudo. Esse vazio e fim.
Restou-nos inventar datas para que pudéssemos ter uma aproximação maior, um abraço menos forçado, um sorriso menos fingido. Restou essa vida que não nos cabe, não nos move, não nos alegra.
Restou-lhe viver. Sobreviver.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Fragmento.

E parece, então, que aquele quarto continuava ali, vazio e escuro, para que eu pudesse entrar às vezes e deitar num canto qualquer, onde passaria a noite lembrando de momentos que não devia e cantarolando músicas que já deveriam ter sido esquecidas. E quando acordasse no outro dia, com os olhos pequenos depois de tantas lágrimas, traria alguns móveis, um som com novos discos, e até um quadro para pôr na parede verde e arrumaria tudo pra criar um novo ambiente, daí eu dormiria com um sorriso enferrujado no rosto, sabendo que aquele ainda era, mesmo depois da mudança, o seu quarto. O nosso quarto.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A mala.

Tenho tentado retirar algumas coisas da minha bagagem, coisas que não usarei na viagem ou que já não me servem de modo algum. O motivo dessa seleção é o peso, pois não tenho forças pra carregar nada além dessa mala de mão que sempre me acompanha. Tenho tentado retirar algumas coisas do meu coração, mas parece que essa retirada, logo essa que é tão importante, não tem surtido muito efeito, o peso continua o mesmo ou até maior, as vezes exito em dar passos largos, temendo fraquejar no meio do caminho, mais uma vez. Quem diria que o silêncio pesa tanto, que a falta de tudo que eu carregava seria mais dolorosa em meus ombros que a presença delas? Não dava pra prever, até porque o coração não antecipa aquilo que ele não aceita. E mesmo assim, com tanto sentimento sobrando, com tantas palavras não ditas e com tantas conversas inacabadas, fecho a mala e ponho a passagem no bolso, pois a vida, tão apressada que é, não pensaria duas vezes antes de me deixar sozinha no trem. Sigo, então, com a mala leve e o peito cheio de um vazio que pesa e me dói, pronta pra descer em qualquer estação que pareça diferente daquela em que embarquei.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Carta.

A gente vive e lamenta todos os caminhos errados que decidimos seguir ou que acabamos tomando sem saber o que nos esperava. Nós mudamos, fazemos escolhas e sofremos por causa das escolhas que fizeram por nós, mas não temos o dever de chorar eternamente por algo que nem vale a pena, ou que vale independente das lágrimas que escorrem por nossos rostos cansados.
A gente cresceu, meus amores, e devemos isso ao sofrimento, ao sorriso, aos tombos e à todas as vezes que resolvemos erguer a cabeça e seguir vivendo, devemos isso a vida. Nós crescemos, não somos mais crianças imaturas e temos outros motivos para viver, outros brilhos a ocultar e outras luzes para apagar, porque a vida não acaba aqui e virando aquela esquina ali na frente tem muita felicidade nos esperando.
O melhor de tudo é a esperança, a vontade de vencer e ultrapassar qualquer barreira idiota que insiste em aparecer, é pela esperança que nós vivemos e é ela que nos faz chegar em casa sustentando o sorriso de plástico que exibimos o dia inteiro.
E a gente chega em casa, apaga a luz e fecha a porta, mas não a tranca, porque a esperança ainda pode chegar e trazer com ela um mundo melhor.

- Aos meus amores: Jessica F. e Lidiane K.