domingo, 1 de abril de 2012
domingo, 19 de fevereiro de 2012
por entre fotos e nomes
sem você
menina
fico mais perdido
que Caetano
cantando
sem lenço
sem documento
e eu vou
sem você
por que não?
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Amnésia alcoólica
Hoje comprei uma carteira de cigarros e fumei todos, ou quase. Estou meio tonto, nada demais, como quando eu viro três ou quatro taças de vinho, fico um pouco bêbado mas sempre quero um pouco mais, alguma coisa que me deixe vivo. Que coisa é essa? Eu não sei. Beber ou fumar não têm surtido tanto efeito assim nesse quesito.
Meu corpo dói, será que os cigarros são tão bons assim? Tão bons quanto você e seu pequeno-corpo-frágil que chega, entra na sala do chefe enquanto eu te observo pela janela de vidro e vem em minha direção como se não soubesse o estrago que está fazendo em minha vida? Talvez sejam, acho difícil, já que você não mata desse jeito, não tão rápido, não sem me fazer pensar em cada mínimo erro que cometi.
Nem o álcool nem o cigarro são capazes de fazer o que você faz, pequena, eles não têm esses dois pedaços de céu que me fazem cantar all my loving trezentas vezes em minha cabeça e depois esquecer da música, da vida, do texto.
seus grandes olhos
negros
negam o meu
olhar
voltam-se para outros
e mentem
matam
cortam
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
relógio
tic
o tempo come
meu coração e
some
das prateleiras, eu
passo bem
sem ter a quem
perder
doar
perdoar
tac
sábado, 5 de novembro de 2011
Perigosa tentação
"Casa da serra? Mas... Tudo bem, vamos." Concordei com a ideia que meu pai teve e entrei no carro. Concordei, mas só o fiz para não gerar outra confusão, eu sabia que aquilo nunca iria dar certo. Enfim, arrumei minhas coisas e fui.
Minha mãe, mais calada do que nunca, também entrou no carro e tratou de olhar a paisagem, as placas, o asfalto, as pequenas casas que insistiam em passar rapidamente, olhava para tudo, menos para nós. Era assim que ela brigava, silenciosamente. Vocês já pararam para pensar no caminho que o silêncio faz até chegar na parte qualquer do cérebro que nos faz sofrer? Bom, eu não sei precisamente, mas acho que ele atravessa por cada veia, cada artéria, incomoda cada célula do nosso corpo, e passa nos arranhando, nos cortando, fazendo doer regiões que nós nem nos dávamos conta da existência. Mas isso não importa, a dor não importa, não para nós.
Continuamos calados e aquilo começou a me enlouquecer. Eu sempre gostei dos sons, da música, de imaginar cada palavra derreter e escorrer pelo canto da boca de quem fala cuidadosamente, ou sair como um vômito da boca dos impulsivos.
Aquele silêncio me trazia ímpetos suicidas. Eu queria morrer, queria fugir do mundo, pular daquele carro, queria qualquer coisa que me tirasse dali. Suicídio. Eu acho que sempre tive esse instinto, ou simplesmente era covarde demais para enfrentar meus problemas, não sei. É fácil demais julgar fraco aquele que escolhe por encerrar sua vida, mas é uma tentação, é quase impossível não pensar nisso, não imaginar o drama, a carta-despedida, a culpa que assolará cada um ao passar dos anos. Essa é, porém, uma tentação perigosa, decidir pelo fim de tudo não é fácil e eu já tinha desistido tantas vezes que aquela parecia ser a hora.
Resolvi esperar por uma última conversa, alguma coisa que pudesse vir deles, qualquer coisa. Nada. Comecei a cantar e minhas palavras se perdiam no ar, assim como se perdem as nossas chances quando deixamos para depois. Eu não sabia o que fazer, todas as coisas apontavam para uma só decisão, tudo parecia gritar para que eu fizesse aquilo e fim. Eu não o fiz e só Deus sabe que eu precisei ser muito forte para não abrir aquela porta e pular, dar adeus e me livrar daquilo.
Até hoje não sei o que me fez desistir, só sei que, ao chegar na casa da serra, eu desci do carro e sabia que a minha tentação tinha sido atropelada em algum lugar do caminho, eu não podia ver, mas sabia que aqueles pneus estavam manchados do sangue que eu não derramei. Fui para a casa embaixo de uma leve chuva, olhei para trás e pude ver que, ainda dentro do carro, meus pais se olhavam e se comunicavam, mesmo naquele silêncio amargo, acredito que a ausência de palavras às vezes cai bem. Talvez tenha sido isso que me livrou da morte, talvez o silêncio tenha me segurado ali, como se ainda houvesse esperança de qualquer coisa.
Não sei o que meus pais conversaram, entrei na casa e comecei a escrever, colocar pra fora tudo que me ligasse àquele instinto, porque a tentação, meus queridos, essa eu sei que não vai me largar e talvez eu não queira porque é ela que mantem meus olhos abertos, ela que me faz querer respirar. Perigosa essa tentação que me faz querer morrer, que, ao contrário do que se espera, me liga à vida e me faz esperar sempre um pouco mais de tudo. Um pouco mais de todos. Perigosa mas cada vez mais minha, mais parte de mim.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Um buraco.
É como um buraco, um grande buraco vazio e profundo, cada vez maior. A física diz que todo corpo tem um ponto de equilíbrio, o meu não. O grande buraco vazio já tomou conta dele e, a cada dia, ocupa mais de mim. Sigo, então, desequilibrada, louca, desesperada, buscando qualquer coisa que o preencha.
Ligo a TV e só o que vejo são pessoas e suas bocas falam, mas não ouço nada. Vou passear e os vultos me deixam desnorteada, tonta. Cada vez mais cega. Eu já não vejo vocês, acreditem, está difícil diferenciar qualquer coisa que não seja o grande vazio do mundo. Ando pela rua, encontro as pessoas e quero vomitar, sinto calafrios, repulsa, será que criei algum tipo de alergia? Alergia ao mundo, às pessoas, a mim. Será que esse buraco é resultado disso? Não sei.
Atravesso a rua e os carros não me incomodam, eles não me vêem, eu não os vejo. Estou aqui, mas também estou à cem mil léguas de distância. Em outra cidade, outro país, outro mundo, um mundo onde eu não existo ou não tenho a obrigação de existir, a obrigação de encontrar vocês, a obrigação de estar viva e de viver essa falsa alegria que todos vocês estão tão acostumados.
Qual o sentido disso? Eu sei que todos vocês sofrem, todos. Sei que vocês vão dormir todos os dias velando o pouco que morreram. E morrem um pouco mais até o dia que todas as outras pessoas se dão conta disso e resolvem enterrar. Eu, ao contrário disso, estou viva, e sinto a dor e a angústia de crescer um milímetro todos os dias, meus pés estão crescendo e criando vida própria. Eles estão me levando a lugares que não quero. Queria desistir dessa loucura que é viver sem ter a mínima noção do que é a vida e apenas deixar os dias passarem um pouco mais lentos, leves, loucos. Queria que esse buraco parasse de me sugar e sugar toda minha energia. Queria.
Durmo e sonho que estou em outras dimensões, tudo meio rosa ou azul demais. Um pouco louco. Não há buracos, apenas luzes, cores, flechas. No meu sonho eu tenho controle de tudo, consigo voar sem a ajuda de motores, parece surreal mas me sinto cada vez mais viva, as cores entram em mim e parece que passam por minhas veias, fazendo meu coração pulsar cada vez mais rápido, me deixando sobre a linha tênue que existe entre a vida e a morte, a linha que faz tremer até o mais corajoso de todos os homens. Ali eu me sinto segura. Ali eu sou feliz sem nem ao menos saber onde estou.
Levanto, tomo um pouco de chá e acredito, mesmo que por uma fração de segundo, que hoje, justamente hoje, o grande buraco vazio vai fechar para que eu possa viver tudo o que há pra viver e cansar e enlouquecer para que todo o ciclo recomece até que não haja mais ciclo algum.
sábado, 3 de setembro de 2011
Notas do arrependimento
Volta. Eu sei que virei as costas e te disse pra partir. Sei que fechei a porta e que nunca sou suave ao fazer isso. Eu errei tantas vezes e em tão poucas quis pedir perdão. Dessa vez é diferente, sinto falta do teu riso solto e abraço apertado. Das brincadeiras. Do teu cheiro. De você. Volta. O café está no fogo, eu sei como você gosta e aprendi a prepará-lo já prevendo essa minha recaída. Volta.
Volta. Repito isso com o desespero de uma planta pelo último fiozinho de sol ao entardecer e espero seu retorno, sua luz, seu calor.
Eu nunca te agradeci. Talvez sim, uma vez, meio por alto. Nunca disse "obrigada" por me salvar, por me dar a mão e me tirar do fundo do poço ao bater na minha porta e chegar trazendo tanto carinho. No lugar disso, te deixei só, te larguei e fui viver minhas aventuras sozinha. Que burrice. Queria poder te abraçar e dizer, ao seu ouvido, a falta que você me faz. Não posso.
Eu não consigo. Não sei escrever sobre ou para você. Acho que porque o silêncio sempre se fez mais presente do que as palavras. Nós não sabemos conversar sobre "nós". Aliás, existe "nós"? É, eu acho que não.
Busco um pedacinho seu em cada pessoa que encontro por aí, não existe. Na verdade eu não sei como nutri esse sentimento, como isso foi acontecer. Você tem tantos defeitos, tantos, tantos, alguns que eu nunca aceitaria em outra pessoa e agora eu finjo que esqueço, que não vi, que tanto faz. Não reconheço esse sentimento em mim, parece um intruso, não sei. Talvez meus anticorpos o detectem em algum momento e o destrua. É o que espero.
Espero a campainha tocar e ver você chegando, com seu passo desengonçado, e ouvir sua voz forte dizendo que me quer de volta. Espero, até agora, você tocar aquela música e fazer aquele pedido. Qual pedido? Eu não queria, não quero. O que eu quero é você aqui comigo, sem nomes, sem rótulos. Só você. Volta.
Eu não consigo dormir, meu pensamento vai aos lugares mais incríveis e você está em todos eles. Isso está beirando a psicopatia. Eu sinto calor e tudo começa a derreter, eu vejo as paredes pingando e seu rosto está em cada gota. Ponho o fone de ouvido e cada música remonta os nossos momentos juntos. Não sei o que fazer. Não sei controlar.
Ando fazendo loucuras. Bebi você, sem pena, sem medo de que você secasse ou me fizesse mal. Bebi e agora tudo que sou é você, transpiro seus sentimentos e choro seu carinho. Mas está acabando, aos poucos vou ficando desidratada e não há fonte que sacie meus anseios, só há você, tão longe, tão distraído, tão impossível.
Permaneço aqui, nesse quarto escuro, enquanto a febre me faz ter delírios cada vez maiores. Tomei remédio e o composto químico era você. Não melhorei. Vomitei versos, palavras, sonhos e a esperança de ter você de volta. Joguei-os fora. Estou na janela, finjo que espero o caminhão do lixo passar para levar aquela bolsa com as minhas verdades, mas na realidade espero você chegar com as suas e trazer de volta toda sensatez que se foi com sua partida. Vem, o tempo está passando e cada segundo me destrói, dói ver que poucas são as coisas que fazem sentido quando você não está aqui.
Assinar:
Postagens (Atom)